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quarta-feira, setembro 10, 2003

O blog de que não se fala 

O blog de que ninguém fala — o tal com as alegadas denúncias sobre o caso da Casa Pia — mas que já conta com cerca de 50 000 visitas no seu escasso mês de existência, constitui, queiramos ou não, um fenómeno. Ao contrário de outros blogs de grande sucesso, este não tem figuras mediáticas, nem referências quotidianas na imprensa, nem entrevistas do seu autor/autores nos jornais. Vive do "passa palavra" puro.

E independentemente da sua real intenção — a quase todos os títulos duvidosa — que não me interessa aqui abordar, a verdade é que estamos em presença de um blog, com um índice de leitura elevadíssimo. E que no entanto, por muitas boas e algumas más razões não tem qualquer eco ou referência (excepto num caso, julgo) nos meios de comunicação social.

Estou sinceramente curioso de ver ao que levará semelhante caso. O que nesse blog se relata, mentira ou não — e eu creio que o é na sua grande parte — quando é lido por 50 000 pessoas, deixa de ser uma mera carta anónima. Será pouco avisado encará-la como tal. É, isso sim, uma história muito bem contada — passível de ser "engolida" por muita, muita, muita gente — com intenções não completamente claras.

A pergunta que se coloca agora, é se o silêncio dos órgãos de comunicação social se revela suficiente para calar ou anular quaisquer consequências que poderião advir deste fenómeno. Se sim, está feita a prova dos nove do real poder dos blogs. Se não, veremos, mas para o bem e para o mal, de certeza que alguma coisa inesperada surgirá.

domingo, julho 06, 2003

A febre dos posts 

No primeiro post que aqui coloquei, dizia eu que toda a discussão à volta dos blogs me parecia prematura. Principalmente por estarmos em plena época de blogomania. E a blogomania, pouco diz sobre os blogs. As pequenas dúvidas, desencantos e desistências que vão sugrindo na blogoesfera, surpreendem talvez quem nunca viu o mesmo acontecer noutras áreas.

A mecânica destes fenómenos é simples: surge uma tecnologia nova que permite ao cidadão comum fazer coisas que antes lhe era impossível fazer. Num ápice, milhares de curiosos — a par de muitos profissionais — fazem experiências, teorizam, divertem-se. Passado algum tempo, dá-se a selecção natural: quem tem ou descobre ter talento (ou qualquer coisa a fazer nessa área), continua; quem não tem nem uma coisa nem outra e se farta de experiências e brincadeiras, acaba por desaparecer.

Exemplo: há meia dúzia de anos, apareceram os primeios softwares que permitiam desenhar tipos de letra originais. Durante o período que se seguiu, por todo o mundo houve uma invasão — ou antes, uma praga — de novos tipos de letra. Qualquer alma (analfabeta ou não) que se aproximasse de um computador desenhava a sua letra. Não havia ementa de restaurante que não apresentasse as pataniscas e o bitoque com ovo a cavalo num tipo de letra exclusivo, modernaço.

Depois, como se esperava, tudo acalmou e cada qual foi à sua vida. E depressa se passou da grande exuberância para um minimalismo franciscano ao nível dos tipos usados. Apenas alguns do tempo da grande febre — os bons e os muito bons — continuam a produzir a um ritmo regular novos tipos de letra. Hoje podemos concluir que toda aquela euforia estimulou o surgimento de novos criadores interessantes. Mas passada essa fase, a verdade é que continuam a surgir de quando em quando, bons designers de letras.

Parece-me pois que fazer qualquer ligação entre os fenómenos de euforia que se geram à volta de uma novidade técnica e as suas potencialidades e virtudes é uma discussão sem sentido. Não acho que possamos encontar na blogomania nada que nos ajude a entender a verdadeira importância dos blogs. É como explicarmos o sucesso do MacDonalds baseados nos seus méritos gastronómicos.

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A ansiedade do feedback a que o socio(B)logue se referia há tempos atrás — a meu ver a grande razão de existir da actual cena blog nacional — tem uma faceta engraçada: em muitos blogs, nos dias em que os seus autores visivelmente nada têm para dizer, colocam um post com qualquer coisa, como quem deixa o jornal na cadeira da sala de espera, para guardar o lugar enquanto vai ao WC. Vazio um dia ou dois nunca: não vá alguém aparecer e tirar o lugar.

terça-feira, julho 01, 2003

Não é fácil, mas é barato! 

1. Quem visitar livrarias em Paris, Londres, Berlim ou Nova Iorque, pode reparar na enorme quantidade de edições de autor ou de editoras quase artesanais, com edições requintadas mas de baixo custo: impressão barata, até fotocópia se necessário fôr, uso de materiais alternativos, processos de produção manuais. Encontrará desde a simples brochura agrafada com miolo de fotocópia e capa em bicromia serigrafada, ao mais imaginativo processo de encadernação manual com recurso a materiais invulgares. Obviamente pobres ou mais compostinhas, a verdade é que estas edições se encontram em livrarias grandes e respeitáveis.

2. Em Lisboa — que é o caso que conheço melhor — não encontro em qualquer das grandes livrarias nada que releve de um fenómeno parecido. Razões possíveis, assim de repente e sem pensar muito: primeiro, ausência de um movimento de edições de baixo custo (prometi a várias pessoas que não usaria o termo 'alternativas') com alguma expressão; segundo — a avaliar pelo lugar ocupado pelos poucos exemplos que encontro deste tipo de edições — a ausência de abertura e espaço digno por parte dos livreiros para exporem e comercializarem este tipo de material.

3. Há uns anos, o publicitário brasileiro Edson Athayde contou-me a seguinte história: nos anos setenta, no Brasil, houve um período em que a publicação de autores nacionais estava em queda. Havia a crença, por parte dos editores que autores brasileiros não vendiam e novos autores ainda menos. Daí que pararam a sua publicação. Esta decisão por sí só, agravou ainda mais o estado das coisas. Os autores, sem possibilidade de publicar, organizaram-se. E de um momento para o outro começaram a aparecer pelas ruas de São Paulo e Rio, banquinhas — como as de vender água de côco e chicletes — em que os autores vendiam edições caseiras dos seus livros, fotocopiadas e agrafadas. O movimento ganhou dimensão, expressão pública, interesse dos media e uma renovação do interesse dos leitores pelos novos autores. Na altura, este foi um dos primeiros passos que ajudou ao relançamento da edição de brasileiros.

Ignoro se a pouca edição de baixo custo em Portugal, decorre de algo mau ou de algo bom. Ou seja, se decorre de algum espírito novo rico dos potenciais editores e do seu correspondente entre os livreiros, ou se porque, pura e simplesmente… não são precisas, porque publicar livros em Portugal, afinal de contas até é fácil.

É uma pena: gosto do cheiro das capas serigrafadas, dos agrafos, das soluções criativas que lhes conferem uma dignidade muito própria, da tocante dedicação de quem os escreve e edita.

E também porque jamais encontrarei nestas edições, livros idiotas de apresentadores de programas de televisão. Isso geralmente fica para as grandes casas de edição.


domingo, junho 29, 2003

Abruptamente 

A propósito do post "Estado do Abrupto (junho 2003)", no Abrupto em 29.06:

Uma das maiores conquistas da internet foi a garantia da igualdade ao nível da produção. Por exemplo, produzir e distribuir um livro ou revista, requer quase sempre um orçamento considerável. No entanto, para colocar uma página na net, muito pouco (ou nenhum) dinheiro é necessário. E esta é uma realidade igual quer para o modesto amador, quer para a gigante multinacional. O poder financeiro aqui não influencia grandemente a capacidade de criar um produto melhor. É frequente, de resto, encontrar sites de grande qualidade (diríamos edições de luxo) produzidos por empresas grupos ou particulares, dotados de parcos recursos financeiros. Realmente determinantes, são as ideias, a vontade e o talento. Os blogs, por exemplo, fazem-se sem ser preciso dinheiro ou conhecimentos técnicos por parte de quem os faz.

Temos então que hoje, todos podem publicar-se, todos podem ter a sua voz em completo pé de igualdade com os demais. Seja a poderosa Coca Cola, seja o simples curioso.

E é aqui que, quanto a mim, termina a igualdade e começa o que já era verdade para a edição de livros, de música, para a indústria do cinema, ou dos iogurtes: é mais lido (ouvido, visto ou comido) quem tem maior capacidade de se divulgar. Porque tem maior ou melhor campanha publicitária, porque tem boa cobertura nos media, ou porque está associado a figuras mediáticas que lhe garantem a legitimação.

As impressionantes estatísticas de visitas do Abrupto de Pacheco Pereira, são a meu ver também uma consequência desta lógica: exactamente com o mesmo conteúdo, o sucesso do Abrupto seria igual se tivesse como autor um cidadão anónimo? Haverá alguém na chamada blogoesfera nacional, que tenha tal legião de leitores? Duvido.

Atenção: que fique bem claro para quem me lê, que não pretendo com isto pôr em causa um milésimo que seja dos méritos do Abrupto, um dos poucos blogs nacionais de que sou leitor regular. Não é, de todo, esse o meu ponto.

A questão de fundo que coloco é: há no âmbito da internet, alguma lógica de legitimação e penetração pública diferente das que conhecemos em outras áreas? Por outras palavras, os factores de sucesso na internet serão muito diferentes dos factores de sucesso, por exemplo, no sector dos livros? Esse sucesso não passa quase sempre pela legitimação feita por factores externos ao próprio meio?

Toda esta reflexão tem lugar porque encontro um pouco por todo o lado, um discurso demasiado optimista sobre a importância e alcance da internet enquanto púlpito alargado na discussão e difusão de ideias. Uma importância e alcance que, quanto a mim tem um âmbito mais limitado do que se fala. Como em todos os outros meios, tem mais probabilidade de ser lido quem dispõe dos mecanismos que lhe garantem visibilidade. O que, em boa verdade não me parece mal: esses mecanismos são eles mesmo o resultado natural de um percurso feito de constantes provas e escrutínios vários ao longo de anos. Aborrece-me, isso sim, a visão da net (e blogs) que no capítulo da difusão das ideias empola a sua verdadeira força. Ignorando que, em tudo o que não é matéria estéril, não se introduziu nenhuma mudança realmente significativa.

Momento de futurologia: não me parece impossível que dentro de um par de anos, surja uma qualquer nova tecnologia de internet, com grande melhoria de capacidades, que essa nova tecnologia ou plataforma seja muito mais cara que a actual e que por isso esteja acessível apenas a quem tem capacidade económica para a suportar. Isto porque acredito ser é um impulso natural de quem teve, tem ou acha que pode ter privilégios, fazer o que pode para os manter ou recuperar. E aí acaba-se de vez a plataforma democrática que a internet hoje constitui.

Dito isto, não posso deixar de dar os parabéns a Pacheco Pereira pelo sucesso do seu Abrupto. Um sucesso com o qual, é importante que se diga, todos nós internautas beneficiamos largamente. Porque de facto, há legitimações que valem a pena.

sexta-feira, junho 27, 2003

Post de observação 

Entretanto, faço uma ronda rápida por uma série de blogs nacionais, que o tempo e o sono não permitem demoras. O que observo? Metade do espaço é ocupado em vénias e agradecimentos de uns para os outros; uma boa parte do que resta é gasto em diálogos cruzados sobre os mesmos assuntos (a polémica DNA/Pedro Rolo Duarte, assunto interessantíssimo, está no top), todos ao mesmo tempo, como nas discussões de café, ou debates políticos na tv: uma algazarra de resposta e contra resposta em simultâneo onde rapidamente se perde o fio à meada. Não seria melhor optarem por um chat? Pelo menos haveria uma ordem de entrada que dava muito jeito.

Os poucos blogs que frequento com regularidade são autistas. São feitos por gente que parece ignorar que os seus escritos podem ser lidos por qualquer um que tenha um computador à frente. Vivem perdidos em grandes cidades americanas, vilarejos argentinos ou no interior brasileiro. São vizinhos que escolhi para encostar o ouvido à parede (ao ecrã) e escutar as suas vidas. Às vezes são mal escritos. Às vezes chatos. Às vezes comovedores. Às vezes gloriosos e felizes.

Mas são questões de gosto, certo?

Pergunta para acabar o dia: quando vai começar a grande desistência e desinteresse em massa dos blogs nacionais?

Rubem, cadê você? 

Ontem só consegui ler os três primeiros contos do "Pequenas Criaturas" do Rubem Fonseca antes de cair para o lado a dormir. Ainda bem. Às prestações a desilusão talvez pareça mais suave. Se o livro continuar assim até ao final, resta-me a consolação de saber que todos os outros do RF continuam na estante, sempre prontos para mais uma revisita.

quinta-feira, junho 26, 2003

A sobremesa 

Como em garoto, que ansiava pelo fim do jantar se a sobremesa era das minhas favoritas, hoje vou para a cama mais cedo começar a ler "Pequenas Criaturas" de Rubem Fonseca que muito aprecio. Há autores e obras que envelhecem mal, o que de não me parece que venha a acontecer com os livros de RB, tirando talvez "Secreções, Excreções e desatinos" precisamente o seu penúltimo. Vamos ver se foi um acidente ou algum sintoma de algo mais complicado. Terei de pedir ao Proust uma breve pausa que me permita a leitura dos contos. Depois conto.

Espectáculo triste 

A rua onde moro, rua da Madalena, em Lisboa, vai ser fechada ao trânsito no dia 4 de Julho, por um período de seis meses por motivo de obras de recuperação urgentes em inúmeros edifícios. Os comerciantes souberam há dois ou três dias da decisão. Eu próprio soube ontem. Moradores que terão escassos dias para desocupar as casas para permitirem obras, a mesma coisa.

A câmara não se deu sequer ao trabalho de avisar ninguém com uma antecedência razoável especialmente os comerciantes da rua. Comerciantes agora sem qualquer tempo útil para pensar em alternativas e em muitos casos verão desaparecer rapidamente os seu meio de subsistência. A exemplo do que sucedeu em muitas situações semelhantes em Lisboa e noutras cidades.

Obras desta envergadura, que beneficiam toda a gente, exigem algum sacrifício de todos. Especialmente dos que mais directamente beneficiarão delas. Até aí ninguém discordadrá. Os sacrifícios não deveriam no entanto ser o preço a pagar por processos trapalhões e acelerados à conta da agenda política e mediática do presidente da Câmara de Lisboa.

Proposta de espectáculo triste: colocar sob hipnose Santana Lopes e perguntar-lhe o que significa para ele o poder.


terça-feira, junho 24, 2003

Não lhe dêem cônfia! 

A piada do livro "Confiança" de Francis Fukuyama está em poder ler-se como o guia explicado do "Portugal de Insucesso".

Fukuyama defende que só há crescimento e prosperidade em sociedades cuja confiança mútua entre cidadãos, fora do âmbito da família, apresenta índices elevados. O espírito de comunidade é aí mais desenvolvido, a capacidade das pessoas se associarem em projectos cívicos ou empresariais é muito maior. Segundo ele, são essencialmente sociedades de influência protestante. Contrastando, nas sociedades de influência católica como a portuguesa (ou confucionista como na China), os laços de confiança fora do âmbito da família são muito reduzidos. Uma das consequências mais importantes é a esassez de empresas com capacidade de se imporem a nível internacional. O tecido empresarial é em regra dominado por empresas familiares de dimensão média, com gestão que passa de pais para filhos, nunca uma gestão profissionalizada, por mais que a capacidade gestora no seio familiar seja limitada. As grandes empresas são quase sempre de capital estatal, com tudo o que isso implica.

Um responsável de um instituto qualquer ligado ao "franchising", falava numa entrevista sobre as dificuldades das marcas nacionais em se "franchisarem" noutros países. Uma delas era a dificuldade dos portugueses em formar parcerias: a mentalidade nacional é que, para um ganhar o outro tem que perder. É lindo: dois portugas associam-se, e quando dão conta que estão ela por ela nos ganhos, vai cada qual para seu lado a remoer "Ai o caraças, que estou mas é a ser otário!".

É a confiança, pessoal! A cônfia! Espreitem o Fukuyama que vão encontrar lá muita coisa conhecida nossa. De resto, não lhe dêem cônfia que não o conhecem de lado nenhum!

segunda-feira, junho 23, 2003

Pimba na cultura! 

1 - Há cerca de dez anos, um amigo meu decidiu sair de Portugal, fez da Inglaterra a sua base, viajou por todo o mundo e só passados cinco anos é que regressou à pátria. Tinha então o Marco Paulo um programa próprio num canal televisivo. Perguntava-me, incrédulo, esse amigo: "O que é que mudou? Quando eu saí, o Marco Paulo praticamente não tinha direito a aparecer na tv e agora até tem um programa próprio. Algo mudou, mas não ele de certeza, que me parece igualzinho ao que sempre foi."

2 - Há meses atrás, Jon de Moll, patrão da Endemol, inventor do Big Brother, deu uma entrevista à Veja. Quando lhe perguntaram se ele não achava que programas tipo BB tinham contribuído para baixar o nível do panorama audiovisual, ele respondeu que o fenómeno era mais ou menos semelhante ao que aconteceu com o boom da música pop nos anos sessenta. Ou seja, o surgimento daquele tipo de música apenas tornou visível (como os líquidos de contraste para as radiografias!) o fosso entre gerações, que já existia, mas que não tinha até aí uma expressão tão visível. Por razões óbvias, ficou-se por aqui e não completou o raciocínio com o remate lógico: o fosso que o Big Brother e semelhantes tornou visível, não foi entre gerações, mas sim entre um público culto e um público inculto.

3 - Há um hábito na imprensa (que teve no Independente e na Kapa os seus expoentes máximos), que consiste em malhar forte feio na legião pimba. Seja o Marco Paulo, a malta do BB, o João Baião ou a Margarida Rebelo Pinto. Pessoalmente, devo dizer que de um modo geral concordo com o que é dito. Mas a minha questão é outra: porque diabo se gasta tanto tempo e tanta tinta em variações sobre verdades que toda a gente conhece? E a fazê-lo em espaços lidos, vistos ou ouvidos por gente que, já se sabe de antemão, partilha dessas posições? Como o Bloco de Esquerda, quando faz maus serviços a boas causas como por exemplo na questão do aborto, ao usar slogans do tipo, e cito de memória, "pelo direito da mulher ao seu corpo", ou "pelo direito da mulher à sua sexualidade": parece-me evidente que quem fôr sensível a este tipo de argumento, é bem provável que comungue da causa, não precisa da persuasão do BE para nada. Experimentem ir para as aldeias tuteladas por padres mais rigorosos (que é aí que o problema está verdadeiramente) falar do direito da muher à sua sexualidade e talvez sejam corridos à pedrada. E no entanto, é esta a mensagem bloquista que vai para as televisões. Tal como aqui, a pancadaria nos pimbas é um discurso que pelo lugar e tom é estéril e inútil. Confesso que não percebo a intenção de tal prática mas admito que me esteja a passar ao lado qualquer coisa. Apenas me sugere os rituais de afirmação de pertença ao grupo, como os assobios e piropos que se lançam às raparigas e que servem na verdade como exibição de virilidade para os outros machos da pandilha.

4 - É urgente contribuir para elevar o nível cultural médio. É óbvio. Até porque, dada a reduzida dimensão do nosso "mercado", a expansão desenfreada da cultura pimba, muito facilmente, e por muitas vias, pode sufocar uma produção cultural mais exigente, que por natureza não conta tão facilmente com o "apoio das massas". Mas estas intervenções de que falo, não fazem parte desse combate urgente, nem sequer pela via da denúncia. Despertam mais ressentimentos que mudanças de mentalidade. Dizia o François Lyotard numa entrevista, que o racismo é o sentimento natural, de quem vê chegar alguém de fora, ocupar um espaço que ele acha que devia ser seu. Não sei se tenho razão, mas há nisto de que falo uma dinâmica vagamente parecida.

5 - Malhar no que não é óbvio, por outro lado, pode trazer dissabores inesperados. Recordo-me de uma crítica que o António Guerreiro fez no Expresso a um livro do Fernando Dacosta, em que, segundo me recordo, o classificava como fascizante, numa perspectiva próxima de Guy Scarpetta. Lembro-me da ira e da fúria censória que despertou numa série de ilustres (alguns deles que pelo seu passado deviam ter da censura uma outra abordagem) e que culminou num abaixo assinado dirigido a Balsemão para que AG fosse "saneado". Foi bonito.

6 - A ignorância já cá está há muito tempo, só que agora é mais visivel. A quem isso incomoda o que se aconselha? A hostilização azeda? É uma guerra tramada: são poucos contra muitos. Haverá formas eficazes de incitar à deserção em massa nas tropas inimigas? Vou pensar nisso e depois deixo aqui a resposta definitiva.

Estava a brincar.


domingo, junho 22, 2003

A praga 

No romance "Lullaby" de Chuck Palahniuk (que tem algumas ideias, mas como não é grande escritor acaba por estargar tudo), há uma passagem em que ele resume a "tese" do livro:

"Imagine a world where people shun the television, the radio, movies, the Internet, magazines and newspapers. People have to wear earplugs the way they wear condoms and rubber gloves. In the past, nobody worried too much about sex with strangers. Or before that, bite from fleas. Or untreated drinking water. Mosquitoes. Asbestos.
Imagine a plague you catch through your ears.
(…)
The new death, this plague, can come from anywhere. A song. An overhead announcement. A news Bulletin. A sermon. A steet musician. You can catch death from a telemarketer. A teacher. An Internet file. A birthday card. A fortune cookie.
(…)
Istead of surgical masks, people will wear earphones that will give them the soothing constant protection of safe music or birdsongs. People will pay for a supply of "pure" news, a source for "safe" informations and entertainment. The way milk and meat and blood are inspected, imagine books and music and movies being filtered and homogenized. Certified. Approved for consumption."

E apesar de ter que se deixar de ler poucas páginas depois de tão mauzinho que é, há aqui um conteúdo metafórico curioso que se aplicaria também à multiplicação da informação (ou informações) via net, blogs incluídos.

Bom e já agora sugiro um que acabei de ler com prazer da primeira à última página: "Youth" de J.M. Coetzee.

Está tudo mais calmo 

Tenho reparado que após os elogios públicos à conduta de Herman José relativamente ao tema Casa Pia, coincidência ou não (acho que não), os ânimos acalmaram. Acabaram as declarações bombásticas diárias, as cartas abertas, as trocas de acusações.

É sabido que o estatuto do bôbo da côrte sempre lhe permitiu dizer ao rei as verdades que mais ninguém tinha coragem de dizer. Triste é percebermos que agora tem que ser o bôbo da côrte a dar ao reino (e à nobreza em particular) exemplos de boa conduta em momentos de crise.

Bienal de Veneza 

Diz-me quem lá esteve, que a Bienal de Veneza está particularmente desinteressante. Não me surpreendo: quando foi a última vez que ví alguém realmente entusiasmado com um acontecimento de artes plásticas?

A propósito do crescente desencanto que se vai sentindo nesta área, aqui vai uma reflexão (ainda pouco estruturada, aceito): as artes plásticas, tal como as entendemos ainda hoje, estiveram sempre ligadas à questão da imagem e a todas as problemáticas que giram à sua volta. Em meados do século vinte com o surgir dos movimentos conceptualistas e afins, começa a dar-se a descolagem da arte em relação à imagem. Acontecimento que por sí só não bastou para modificar profundamente o que quer que fosse: oitenta anos em "part-time" não chegam para alterar uma identidade forjada ao longo de muitos séculos.

Passámos do tempo em que as imagens, raras, tinham um carácter quase sagrado, até aos dias hoje em que não há nada mais banal do que mais uma imagem. Num gráfico da perda de importância, sempre em queda lenta desde o princípio, no século vinte verifica-se que essa queda foi a pique. Razões próximas: o poder de ver imagens, criar imagens, manipular imagens, difundir imagens, passou a estar ao alcance de qualquer um. Uma infinidade de outras áreas da criação, até então consideradas menores, apropriaram-se das imagens, ganhando rapidamente importância, influência e poder.

Espoliadas de um capital que se confundia com a sua própria identidade, as artes plásticas vão periodicamente contraindo uns empréstimos junto da sociologia, da antropologia ou da filosofia. E vivem hoje como aquelas famílias que em tempos tiveram dinheiro e poder, que entretanto perderam ambos, mas que ainda vivem na ilusão de que tudo continua como antes.

E agora? Bom, acho que haverá boas notícias no futuro: reparo que as novas gerações, com menos perspectiva histórica do que o bom senso em tempos normais aconselharia, têm nesse "handicap" uma forma de não sofrerem demasiado as dores das gerações anteriores. Mais abertos a tudo, sem complexos, sem petulâncias anacrónicas, sem pensarem nisso estão a repensar o posicionamento das artes plásticas. Ou seja, com o tempo a coisa irá ao lugar.

Sobre a memória do 11 de Setembro 

Estive em Nova Iorque em Novembro de 2001, ou seja dois meses após os atentados. Como era de esperar o 11 de Setembro estava por todo o lado: nos milhares de bandeiras americanas de todos os tamanhos plantadas em cada metro quadrado da cidade, em toda a sorte de expressões de pesar ou solidariedade afixadas e pintadas nas paredes, mas também nas conversas com os amigos, nos diálogos das pessoas na rua, nos jornais e nas televisões.

Pude então confirmar uma impressão que já tivera aqui em Portugal ao ver um documentário sobre os atentados: o tom empregue, principalmente nas peças televisivas, era o que de costume se usa na narração de acontecimentos ocorridos há muito tempo. Todos os recursos estavam lá: a montagem pausada e pontuada por sequências em câmara lenta, o tratamento "envelhecido" das imagens do próprio dia 11 de Setembro balizadas por "fade-in" e "fade-out", os relatos na primeira pessoa de testemunhas com uma postura já calma e distanciada. Nada na expressão do que era dito, revelava em algum momento que se tratava de acontecimentos frescos, ocorridos dois meses antes. Tudo podia ter acontecido cinco anos antes, não teria sido preciso mudar um único fotograma.

E, mais inquietante, como se essa "patine" dada pelos media envelhecesse de facto a memória colectiva dos atentados, as pessoas em regra reagiam de um modo vagamente distanciado. Sentia um subtil desfasamento entre o que diziam e a carga expressiva que eu esperava encontrar, mesmo fazendo a necessária "tradução" cultural da expressão de sentimentos. Na altura lembro-me de atribuir o facto à postura de "a vida continua" que os nova iorquinos adoptaram como (única aliás) forma de ultrapassar o trauma.

Hoje, parece-me cada vez mais que para essa aparente serenidade, muito contribuiu o tipo de embrulho mediático que envolveu o pós 11/9. Dir-se-á que foi deliberado, como forma de ajudar a exorcizar o trauma. Talvez, mas então revelando uma nuance sinistra: a demonstração de eficácia de uma forma de manipulação colectiva.

E não esquecer que em Novembro já se anunciava a estreia de um novo sucesso mediático: a guerra no Afeganistão. O anterior, apesar de tudo já era "old news", já devia estar à venda em DVD!

sábado, junho 21, 2003

Com cuidado, para não ir contra um post! 

E começo assim o meu blog: o que se tem falado recentemente acerca dos blogs pela blogosesfera fora, é mais uma daquelas discussões interessantes em que o meio reflecte sobre a sua própria condição e que neste caso só peca por ser prematura. Por outro lado, acredito que esta discussão só tem tem lugar precisamente porque se trata de uma novidade. Daqui a um ano talvez ninguém se lembre de reflectir sobre os blogs, quem sabe.

Há quinze anos atrás, fui um dos primeiros ilustradores em Portugal a usar o computador no meu trabalho. Durante muito tempo, alunos, curiosos, colegas, pediam-me invariavelmente para lhes falar sobre… o computador. E eu falava, claro. Pois agora que, passados quinze anos, tenho muitas e mais interessantes coisas para dizer acerca do modo como os computadores alteraram formas de trabalhar, de pensar, de criar e por aí fora, acreditem-me que nunca mais ninguém me pergunta nada acerca deles.

Tenho tentado desesperadamente lembrar-me do que naquele tempo eu terei dito sobre o computador. É uma pena não conseguir porque acho que me ia divertir imenso.